Copa do Mundo é momento de risco para dependentes de apostas esportivas
A Copa do Mundo, que começa na quinta-feira (11) na América do Norte, representa um momento de alto risco de dependência em apostas esportivas para jovens e pessoas com menor autocontrole, alertam associações e especialistas antes do início do torneio.
"Essa festa coletiva é vista como uma oportunidade para atrair um público mais jovem, menos interessado em futebol no restante do ano, para as apostas esportivas", afirmou à AFP o sociólogo francês Thomas Amadieu, autor do livro "La fabrique de l'addiction aux jeux d'argent" ("A fabricação da dependência dos jogos de azar" em tradução livre).
Segundo ele, a Copa do Mundo é "um momento de risco", em que "a promoção das apostas é cada vez mais eficaz", impulsionada pelo aumento da publicidade, de premiações e de campanhas com influenciadores.
"Em poucos anos, as apostas se banalizaram. Associar apostas esportivas ao esporte representa uma grande mudança sociológica e é muito difícil desfazer esse vínculo", destacou Amadieu.
Ele compara o fenômeno à associação criada pela indústria do tabaco entre cigarro e ideias de liberdade, transgressão e prazer.
"Mas alguns atletas, como Kylian Mbappé, consideram negativa a associação de sua imagem a marcas de apostas esportivas. As apostas também podem gerar pressão e comentários agressivos nas redes sociais quando os atletas não têm o desempenho esperado", acrescentou.
- Jovens como alvo -
Em um evento de grande impacto social, os jovens ficam especialmente expostos à publicidade de apostas nas redes sociais e nos espaços públicos.
No Reino Unido, a publicidade de casas de apostas é proibida dos cinco minutos antes aos cinco minutos depois das partidas. Algumas associações consideram a medida positiva, mas insuficiente.
"Deveria ser de uma hora antes até uma hora depois dos jogos", defendeu à AFP Myriam Savy, diretor da associação Addictions France.
Ela também propõe impedir que empresas do setor utilizem patrocínios para contornar restrições à publicidade.
Para Amadieu, as estratégias comerciais das empresas podem ser uma armadilha especialmente para adolescentes.
"O cérebro deles ainda não está maduro, então têm mais chances de perder o controle", explicou.
Segundo ele, isso pode levar jovens a apostar mais do que pretendiam, tentar recuperar perdas, contrair dívidas, pedir empréstimos, sofrer estresse e mentir para suas famílias.
"Iniciar os jovens nos jogos significa, para os operadores, garantir uma audiência por muitos anos", afirmou.
- Legislação protetiva -
Outro grupo vulnerável são os moradores de áreas mais pobres, onde a promessa de dinheiro fácil pode ser especialmente atraente.
"Nos bairros populares existem mensagens que podem acionar certos mecanismos: reconhecimento social, fuga do cotidiano e a possibilidade de ganhar dinheiro rapidamente", explicou Amadieu.
As associações defendem regulamentações mais rígidas e restrições à publicidade, em vez de confiar na autorregulação das empresas do setor.
"A indústria responsável pelos danos se apresenta como a solução do problema para evitar regulamentações mais protetivas aos jogadores", criticou o sociólogo.
"Cada vez mais países restringem a publicidade e a oferta de jogos, adotando regulamentações mais firmes", concluiu.
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