Trump diz que conversou com a 'formidável' presidente interina da Venezuela
O presidente Donald Trump disse nesta quarta-feira (14) que conversou por telefone com a presidente interina de Venezuela, Delcy Rodríguez, no primeiro contato público entre ambos após a deposição forçada de Nicolás Maduro em um ataque dos Estados Unidos.
O telefonema marca um ponto de virada na relação entre os dois países, que já estão tomando medidas para retomar os laços diplomáticos e assinaram acordos energéticos.
Trump garantiu que tudo "vai muito bem" com a Venezuela, quase duas semanas depois que as forças americanas bombardearam Caracas e outras regiões, e capturaram Maduro.
"Tivemos uma longa ligação, discutimos muitas coisas", declarou Trump a jornalistas, e descreveu Delcy como "uma pessoa formidável". "É alguém com quem trabalhamos muito bem".
Por sua vez, a dirigente venezuelana classificou a conversa de "produtiva e cortês" e "realizada em um marco de respeito mútuo".
"Abordamos uma agenda de trabalho bilateral em benefício de nossos povos, assim como assuntos pendentes na relação entre nossos governos", escreveu ela no aplicativo de mensagens Telegram.
Pouco antes, anunciou que a Venezuela vive um "novo momento político" em um breve encontro com jornalistas, no qual ignorou perguntas sobre uma possível viagem a Estados Unidos e Colômbia.
"Ela está com o passaporte vencido", brincou o irmão da presidente interina e chefe do parlamento, Jorge Rodríguez.
- 'Entendimento' -
Trump tem reunião marcada nesta quinta-feira com a Nobel de la Paz María Corina Machado, líder da oposição venezuelana relegada até agora nos planos de Washington para a Venezuela pós-Maduro.
A conversa entre Trump e Delcy coincide com uma nova leva de soltura de presos políticos, um processo que começou na semana passada e avança a conta-gotas.
As últimas libertações incluem o renomado ativista opositor Roland Carreño, jornalista de profissão, e se somam às de cidadãos americanos anunciadas ontem pelo Departamento de Estado em Washington.
O sindicato da imprensa reportou 19 liberações até as 22h GMT (19h em Brasília), entre repórteres, cinegrafistas, assistentes e membros de equipes de imprensa.
Delcy Rodríguez assumiu o poder depois que Maduro e sua esposa Cilia Flores foram detidos e enviados aos Estados Unidos em 3 de janeiro para serem julgados por narcotráfico.
A presidente interina considerou a ação um "sequestro", mas não tocou no tema ao informar sobre o telefonema com Trump.
Delcy assinalou que espera que o "novo momento político" da Venezuela "permita o entendimento a partir da divergência e da diversidade político-ideológica".
Disse que o 406 presos políticos já foram soltos desde dezembro. De acordo com o governo, 116 detidos deixaram a prisão esta semana.
A ONG Foro Penal relatou 72 libertações desde o anúncio de 8 de janeiro. Essa organização e outras de direitos humanos estimam que a Venezuela tenha entre 800 e 1.000 presos políticos.
— 'Paz' e 'reconciliação' —
As autoridades têm evitado liberar os presos políticos nas prisões onde estão reclusos, diante das quais dezenas de familiares se aglomeraram com a esperança de ver seus entes queridos fora das celas.
Os detidos são transferidos dos centros de reclusão para outros locais para serem liberados, longe das lentes da imprensa.
Carreño foi liberado em um centro comercial. "Com as emoções misturadas, mas, enfim, em liberdade", disse ele em um vídeo de Luis López, outro jornalista libertado, divulgado pela imprensa local.
"Ainda há muita gente presa nas cadeias e esperamos que sejam libertadas", acrescentou. "Não é bom nem saudável para um país ter presos políticos."
Carreño fazia parte das mais de 2 mil pessoas detidas após os protestos contra a questionada reeleição de Maduro em 2024. Ele integrava o partido Vontade Popular e foi um colaborador próximo do antigo líder opositor Juan Guaidó. Antes, atuou como comentarista no canal de notícias Globovisión.
Ele estava detido no presídio Rodeo I, nos arredores de Caracas. Detalhou que foi informado sobre sua soltura de madrugada.
Ele esteve preso anteriormente entre 2020 e 2023, acusado de "terrorismo", e foi libertado em meio às negociações entre Venezuela e Estados Unidos antes das eleições presidenciais.
O caso de Carreño, à época, foi questionado por uma missão de especialistas das Nações Unidas, organismo que denunciou crimes contra a humanidade na Venezuela durante a repressão aos protestos.
— 'Zonas de paz' —
Entre os libertados também está Nicmer Evans, analista político e diretor do veículo Punto de Corte, que já havia sido preso em 2020 por 51 dias.
Washington informou na terça-feira que a Venezuela tinha começado a libertar prisioneiros americanos, sem especificar o número: apenas disse que era mais de um.
A administração Trump havia conseguido a libertação de americanos anteriormente, em uma troca que envolveu imigrantes venezuelanos detidos na prisão de segurança máxima Cecot, em El Salvador.
Após uma conversa telefônica nesta quarta-feira, o presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, e seu par russo Vladimir Putin "manifestaram preocupação com a situação na Venezuela e reiteraram a importância de que a América do Sul e o Caribe sigam como zonas de paz", segundo um comunicado.
Em Madri, um grupo de familiares dos 200 mortos nos protestos de 2017 na Venezuela criticou nesta quarta a "lentidão" do Tribunal Penal Internacional (TPI) e pediu agilidade na investigação por crimes de lesa-humanidade contra o agora deposto Maduro.
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