Paris registra novos confrontos e saques após dia de protestos
A polícia de Paris enfrentava manifestantes e novos saques neste domingo (18), enquanto autoridades avaliavam os danos causados na véspera por distúrbios ocorridos durante protestos contra o custo de vida elevado em todo o país, que resultaram em cerca de 2 mil detidos.
O caos de sábado, classificado como "sem precedentes" pelas autoridades, aumentou a pressão sobre o presidente de centro-direita Emmanuel Macron, que nas últimas semanas também enfrentou manifestações estudantis.
A turbulência ocorre a seis meses das eleições presidenciais de 2027, das quais Macron não poderá participar devido ao limite de mandatos, enquanto a líder da extrema direita Marine Le Pen aparece à frente nas pesquisas.
Em Paris, funcionários municipais ainda limpavam as ruas, repletas de restos carbonizados das barricadas erguidas pelos manifestantes com bicicletas, contêineres de lixo e mobiliário urbano, quando uma nova concentração não autorizada reuniu centenas de pessoas neste domingo na Praça da República, no centro da cidade.
A polícia tentava dispersar os manifestantes com gás lacrimogêneo e granadas de efeito moral e mobilizou, pelo segundo dia consecutivo, uma unidade especializada no combate à violência urbana.
"Diante dos primeiros sinais de tensão, os agentes" se aproximaram "para dispersar e deter", acrescentou a Prefeitura de Polícia.
Ali, de 26 anos, afirmou que circulavam convocações nas redes sociais para comparecer ao local e "continuar a mobilização de ontem, com a ideia de esgotar os policiais".
Imagens divulgadas por emissoras de televisão mostraram o saque de uma loja de roupas e vários incêndios de bicicletas na região.
Cerca de 2 mil pessoas foram detidas no sábado (17), e aproximadamente 600 policiais, gendarmes e bombeiros ficaram feridos, informou neste domingo o ministro do Interior, Laurent Nuñez.
A presidente da Assembleia Nacional, Yaël Braun-Pivet, proporá a criação de uma comissão parlamentar para investigar os distúrbios e saques, assim como a atuação das forças de segurança, questionada pela oposição e por vários prefeitos.
Em Paris, onde a polícia registrou um recorde de 855 detidos, vitrines destruídas e carcaças de carros incendiados eram vistas em várias regiões.
A vice-prefeita de Paris, Lamia El Aaraje, lamentou "um nível de violência que, acredito, nunca tínhamos visto".
Sob pressão, Macron fez um pronunciamento televisionado neste domingo, no qual afirmou que "nada justifica", "nada explica" e "nada desculpa" a violência registrada durante os protestos.
O presidente pediu, no entanto, que os responsáveis pelos distúrbios não sejam confundidos com as centenas de milhares de pessoas que se manifestaram pacificamente no sábado contra o aumento do custo de vida.
Na capital e em várias cidades, como Marselha, Bordeaux, Nice e Estrasburgo, dezenas de estabelecimentos comerciais foram saqueados por jovens mascarados durante as manifestações de sábado, convocadas em todo o país contra a inflação e o alto custo de vida.
Pelo menos 1.500 estabelecimentos comerciais sofreram danos em todo o território, segundo a Federação de Comércio e Distribuição.
- Grupos de 'extrema esquerda' -
Na região centro-oeste do país, a cidade de Limoges perdeu no sábado sua prefeitura do século XIX devido a um incêndio que, segundo declarou o representante do governo local à emissora LCI, foi provocado deliberadamente por "uma horda selvagem".
Tanto o governo Macron quanto a candidata presidencial de extrema direita Marine Le Pen responsabilizaram grupos de "extrema esquerda" pela violência.
Jean-Luc Mélenchon, líder do partido de esquerda radical França Insubmissa (LFI), que havia apoiado abertamente as mobilizações, respondeu: "Aqueles que compartilham nossa luta não têm nada a ver com os saques e a pilhagem".
Mais tarde, pediu ao presidente que respondesse às reivindicações dos manifestantes e afirmou que a juventude "precisa que esta situação termine bem".
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, associou a imigração aos distúrbios e pediu à França que endurecesse suas regras migratórias.
"A imigração de pessoas provenientes de um mundo totalmente diferente, pessoas com ódio no coração, destruiu esse país que um dia foi grande", afirmou em sua plataforma Truth Social.
- Adolescente perde olho -
Em Paris, o Ministério Público informou que mais de 500 pessoas continuavam detidas neste domingo, entre elas 171 menores de idade.
A violência ocorreu paralelamente a um dia de mobilização nacional contra o alto custo de vida, que reuniu entre 550 mil e 800 mil pessoas, segundo as autoridades e a principal central sindical francesa, a CGT, respectivamente.
A polícia usou gás lacrimogêneo e jatos de água contra os manifestantes, que lançaram objetos e dispararam fogos de artifício.
Um jovem de 17 anos perdeu uma das mãos em Saint-Étienne, no sul do país, devido à explosão de uma granada lançada pelas forças de segurança, e uma adolescente da mesma idade perdeu um dos olhos em Mulhouse, no leste.
Além dos coletivos estudantis, o movimento dos coletes amarelos, que organizou protestos há oito anos contra o aumento de um imposto sobre combustíveis, havia convocado as manifestações de sábado sob o lema "Amarelos e Jovens".
A principal reivindicação era contra o custo de vida, impulsionado em parte pela guerra no Oriente Médio, que contribuiu para a aceleração da inflação.
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