IA pode marcar um ponto de virada na ajuda humanitária
Veículos controlados à distância para áreas de difícil acesso, análise de dados para detectar deslocamentos populacionais... As organizações humanitárias buscam aproveitar o potencial da inteligência artificial (IA) para otimizar suas operações nos cenários mais complexos.
Os alertas sobre os riscos que a IA representa para as organizações humanitárias são numerosos. Elas precisam proteger dados com frequência extremamente sensíveis e enfrentar a proliferação da desinformação sobre suas atividades e sobre as populações às quais prestam assistência.
No entanto, na cúpula "AI for Good" ("IA para o Bem"), realizada nesta semana em Genebra, os espaços dedicados à ação humanitária destacaram principalmente o potencial da IA para transformar o setor.
Em um canto do amplo pavilhão do centro de convenções Palexpo estava um imponente veículo branco, semelhante a um robô marciano, equipado com câmeras, sensores e uma plataforma de pouso para drones no teto.
O Programa Mundial de Alimentos (PMA) prepara testes de campo com uma versão desse caminhão assistido por inteligência artificial, que pode ser controlado à distância nos terrenos mais perigosos e inacessíveis.
Essa tecnologia "deverá permitir que cheguemos a pessoas que, de outra forma, jamais conseguiríamos alcançar", afirmou à AFP Bernhard Kowatsch, diretor do Acelerador Global para Inovação e Empreendedorismo do PMA.
A agência da ONU utiliza veículos SHERP - anfíbios todo-terreno originalmente desenvolvidos na Ucrânia para operar em ambientes extremos - para entregar ajuda humanitária no Sudão, Sudão do Sul e Uganda.
Após a perda trágica de vários motoristas, o PMA pediu ao Centro Aeroespacial Alemão (DLR) que equipasse esses veículos com inteligência artificial e outras tecnologias para que pudessem ser operados à distância em áreas especialmente perigosas.
- Salvar vidas -
Testes já foram realizados na Alemanha e ensaios em condições reais estão previstos para Uganda em 2028, informou Armin Wedler, coordenador do projeto AHEAD (Dispositivos Autônomos para Ajuda Humanitária de Emergência) do DLR.
Ao lado do veículo, com 2,80 metros de altura, ele explicou que a equipe utilizou tanto "tecnologias baseadas em matemática e pesquisa clássica" quanto inteligência artificial.
Wedler reconheceu que seria possível tornar o veículo totalmente autônomo, mas destacou que, em contextos humanitários complexos, "é necessário que um ser humano continue fazendo parte do processo".
"Não estamos falando de circular por estradas bem traçadas, com faixas claramente delimitadas. Não há estradas", explicou, citando também situações em que caminhões são repentinamente cercados por multidões famintas.
"Nenhum algoritmo autônomo de inteligência artificial jamais será capaz de administrar essa situação com total segurança", afirmou.
O Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (Acnur) apresentou um novo assistente jurídico virtual movido por IA, destinado a advogados e juristas que representam refugiados em diferentes sistemas legais nacionais.
Preparar processos de forma mais rápida e eficiente pode "salvar a vida de muitos refugiados", declarou Rebeca Moreno Jiménez, especialista-chefe em dados do Serviço de Inovação do Acnur.
Outra iniciativa da ONU, chamada DISHA (Análise de Dados para Ação Social e Humanitária), utiliza parcerias com empresas privadas como Google e McKinsey para fornecer às ONGs dados e modelos de IA destinados a acelerar e melhorar a resposta a desastres.
Um dos projetos usa a análise por IA de dados anônimos de telefonia móvel para detectar deslocamentos populacionais em massa durante catástrofes. Outro emprega inteligência artificial para analisar rapidamente imagens de satélite captadas antes e depois de desastres, como os terremotos ocorridos no mês passado na Venezuela.
"O objetivo é fornecer aos responsáveis pela tomada de decisões informações confiáveis com antecedência suficiente para que possam tomar decisões melhores", explicou à AFP Andreas Kortis, gerente de produto da DISHA.
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