Anne Carson, a poetisa canadense que moderniza a Antiguidade
A poetisa, ensaísta e tradutora canadense Anne Carson, laureada nesta quinta-feira (8) com o Prêmio Nobel de Literatura, combinou misticismo e antiguidade em contos modernos de amor, desejo e desespero.
A autora de 76 anos, professora de clássicos com experiência em línguas mortas, literatura comparada, antropologia e história, foi descrita pelo jornal The New York Times como "uma das grandes mestras do pastiche".
Sua obra foi ignorada durante anos, até uma série recente de sucessos de crítica e de público. Em 2020, recebeu o Prêmio Princesa de Astúrias de Letras.
Extremamente reservada, evita conceder entrevistas pessoalmente e aceita fazê-lo apenas por e-mail.
Entre seus muitos admiradores estiveram grandes nomes da literatura, como Alice Munro, Michael Ondaatje, Harold Bloom e Susan Sontag.
"Ela é uma das poucas escritoras em língua inglesa de quem eu leio qualquer coisa que escreva", declarou Sontag, citada pelo New York Times, em 2000.
- Inspirada na Antiguidade -
Nascida em 21 de junho de 1950 em Toronto, é a segunda filha de um banqueiro e de uma dona de casa.
Durante o ensino médio, foi introduzida à literatura helênica, que posteriormente influenciaria muito seus escritos, por um professor de latim que concordou em ser seu tutor durante o horário de almoço.
Carson abandonou a universidade duas vezes antes de concluir o doutorado. Depois passou a lecionar em instituições prestigiadas do Canadá e dos Estados Unidos, entre elas a Universidade de Michigan.
Sua carreira editorial começou em 1986 com "Eros, o doce-amargo: um ensaio", que estabeleceu seu estilo de moldar histórias como a literatura grega clássica. As vendas só decolaram depois que ela se mudou para os Estados Unidos e ganhou visibilidade.
Segundo John D’Agata, da Boston Review, esse livro "surpreendeu primeiro a comunidade clássica como um trabalho de erudição grega; surpreendeu depois a comunidade de não ficção como um inspirado retorno aos ensaios sobre as letras outrora produzidos por Sêneca, Montaigne e Emerson; e então, só então, já em meio a década de 1990, reeditado como 'literatura' e redesenhado para um público completamente novo, surpreendeu finalmente os poetas".
- Poesia premiada -
Em 2013, Carson já havia publicado 18 livros, incluindo "Vida, ironia e deus", "Autobiografia do vermelho: um romance em versos" e "A beleza do marido: um ensaio ficcional em 29 tangos".
Sua poesia contemporânea singular lhe rendeu diversos prêmios literários, incluindo o Lannan Prize de 1996 e o Pushcart Prize de 1997, ambos por poesia.
Em 2001, ela se tornou a primeira mulher a receber o Prêmio T.S. Eliot de poesia. E em 2014 foi agraciada pela segunda vez com o Griffin Poetry Prize por sua coletânea "Red Doc".
Sua aclamada "Autobiografia do vermelho" faz uma adaptação livre do mito grego do monstro Gérion e de Héracles, transformando-o em uma história moderna de um triângulo amoroso gay.
"Essa é a obsessão de Carson, e também seu dom: dar sentido aos fragmentos que recebemos, que também são tudo o que recebemos, do tempo, do passado, uns dos outros", escreveu Kathryn Schulz na revista New York no ano passado.
Apesar de suas habilidades excepcionais de escrita, Carson diz que luta com a linguagem, com sua imprecisão e falta de agilidade.
"Estamos falando da luta para arrastar um pensamento da massa do inconsciente até algum tipo de gramática, sintaxe, sentido humano; cada tentativa significa começar de novo com a linguagem. Começar de novo com precisão", disse ao The New York Times.
"Quero dizer: cada pensamento começa de novo, então cada expressão de um pensamento precisa fazer o mesmo. Toda precisão precisa ser inventada... Sinto que estou errando em conceitos finos demais para mim".
Em 2019, publicou "Norma Jeane Baker of Troy", inspirada em "Helena", de Eurípides, e que coloca Marilyn Monroe no lugar da personagem lendária da mitologia grega. E em 2021 veio na sequência "The Trojan Women: A Comic", uma história em quadrinhos que reinventa a obra clássica de Eurípides.
孫-H.Sūn--THT-士蔑報